Escutai-O !
Homilia para o 2.º Domingo da Quaresma - Ano A
Domingo 1ro de março de 2026
Ouçamos Jesus, obedeçamos-Lhe!
Que contraste entre o Evangelho do domingo passado e o de hoje! Na semana passada, Jesus estava no Monte da Quarentena a lutar contra o demónio, com o inferno a atacá-lo; hoje, é o céu que se abre. Noutro monte, Jesus é transfigurado na luz do Pai celestial. No entanto, trata-se do mesmo mistério! Ambos os acontecimentos estão voltados para a cruz e a ressurreição, a grande obra redentora e regeneradora para a qual o Verbo se fez carne.
– Em Cesareia, seis dias antes, à pergunta «quem sou eu para vós?», por inspiração, em nome dos Doze, Pedro tinha proclamado a divindade de Jesus: «Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo». No entanto, Jesus sabia que a fé deles na sua divindade era frágil. Na Última Ceia, dirá: «Todos vós vos escandalizareis por minha causa nesta noite» (Mt 26, 31). A provação que se preparava seria tão terrível para a fraqueza deles que Jesus quis conceder-lhes um último socorro. Por isso, Jesus revela a sua divindade aos três apóstolos mais próximos, que o verão totalmente derrotado na hora da agonia. Maravilhosa manifestação: «o seu rosto resplandecia como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a neve». Abramos os nossos ouvidos à voz do Pai que nos diz: «Este é o meu Filho amado, em quem depositei todo o meu amor, ouçam-no».
– Ouçam-no: levemos Jesus a sério. Levemos a sério tudo o que Jesus nos diz no seu Evangelho. Não deixemos de lado nenhuma das suas palavras. Ouçamos Jesus juntamente com a Lei e os profetas, simbolizados pela presença de Moisés e Elias, pois toda a Escritura fala de Jesus.
– Ouçam-no: Queremos ouvir Jesus e apenas Jesus. Não queremos ouvir os falsos profetas nem os ídolos. Ouvir é obedecer, pois na palavra «obedecer» (em latim, ob-audire) está o verbo «ouvir». Abraão foi um modelo de escuta da vontade de Deus. Ele obedeceu magnificamente a Deus, que lhe pediu para partir do seu país aos 75 anos. Ele não sabe para onde Deus o levará; é um caminho que exige obediência e confiança radical, às quais só a fé permite aceder. Ele confia em Deus porque ama o seu Deus. Somos chamados a imitar Abraão na sua fé, na sua confiança, no seu amor e na sua escuta de Deus. Será que confiamos realmente n’Ele? Estaremos prontos para O ouvir, seja o que for que Ele nos peça? Hoje, Nosso Senhor convida-nos a deixar a terra dos nossos maus hábitos, a terra do nosso «eu primeiro», para descobrir novos horizontes muito mais belos! Por vezes, a vontade de Deus vem surpreender-nos através de um acontecimento que não queríamos. Aceitemo-la, como Abraão. Mas é fonte de muita alegria e crescimento.
– Ouçam-no: Ouvir Jesus na oração e através dela. A Mãe Maria-Augusta dizia:
«Rezem bem, de coração a coração com Jesus; respondam sempre “presente”, tal como Ele próprio está sempre presente nas nossas orações. O Coração de Deus é tão sensível à oração quando esta é fervorosa e confiante, mesmo nos momentos de aridez. Rezem, meus filhos amados; mas a melhor oração é aquela em que há mais amor, aquela em que nos mantemos mais ternamente, mais amorosamente junto ao Coração de Jesus… É preciso aprender a rezar. É através da oração longa e frequente, através do apego amoroso à Pessoa divina de Jesus, que se pode realizar a colaboração com Ele.»
– Ouçam-no: Ouvir Jesus e seguir o seu Evangelho tem um custo. Não procuremos a tranquilidade que pode advir de fechar os olhos e acomodar-nos. Temos de ser guerreiros fervorosos pela fé, pela verdade e por Jesus. Aborto – Eutanásia: não podemos ficar calados. Não podemos ser discípulos de Jesus sem tomar a sua cruz. Recordemos estas palavras de Jesus: «Quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz e siga-me». Hoje, foi-nos recordada esta exortação de São Paulo a Timóteo: «Com a força de Deus, assume a tua parte dos sofrimentos ligados ao anúncio do Evangelho». «O nosso Salvador, Cristo Jesus, manifestou-se: […] fez resplandecer a vida e a imortalidade através do anúncio do Evangelho». Assumamos a nossa parte no sofrimento ligado ao Evangelho, é a única forma de o fazer renascer e dar fruto. Pensemos que todos têm direito à verdade. Esta manhã, no Ofício das Leituras, ouvimos São Leão Magno dizer-nos: «Que ninguém se envergonhe da cruz de Cristo, pela qual o mundo foi redimido. Que ninguém, portanto, tema sofrer pela justiça, nem duvide da recompensa prometida; pois é pelo trabalho que se alcança o descanso, pela morte que se alcança a vida». A cruz nos molda e transforma tudo. Carreguemo-la seguindo Jesus. Ela é o caminho do amor e da ressurreição.
– O evento da Transfiguração mergulha-nos numa grande esperança. Revela-nos a grandeza de Jesus; Ele é verdadeiramente Deus, é o Sol. A Transfiguração mostra-nos que somos chamados a partilhar a sua glória. Jesus revestiu-se da fraqueza da nossa carne para nos revestir da claridade da sua divindade. Através da Transfiguração, Jesus revela que a cruz é o caminho da glória. É o caminho da sua ressurreição, mas também da nossa ressurreição, onde a fragilidade do nosso ser será transformada e alcançará uma qualidade superior, uma vez que seremos tornados capazes de participar na sua glória. Por isso, durante esta Quaresma, «avancemos nas nossas descobertas do amor»!